Nelson Mandela: 8 Lições de Liderança
- Luís Pedro Monteiro

- 3 de jan. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de jul. de 2024
Ícone indomável da justiça e da liberdade, Nelson Mandela personifica a resiliência e a coragem que transformaram adversidade em triunfo.
Incansável defensor dos direitos humanos, desafiou a tirania do apartheid na África do Sul, emergindo como símbolo global da luta pela igualdade.
Essa luta implicou um enorme sacrifício pessoal e familiar, levando ao seu encarceramento por quase três décadas (27 anos), tendo cumprido parte desse período na hoje famosa prisão de Robben Island:

Com efeito, nem só de política se caracterizou a vida de Mandela. Por exemplo, alcançou considerável prestígio enquanto advogado. Em 1952, em conjunto com Oliver Tambo, viria a abrir a primeira sociedade de advogados (negros) na África do Sul.
No exercício da sua atividade, adquiriu uma reputação de excelente orador e de astuto estratega no confronto entre as partes oponentes, o que lhe fazia merecer o respeito dos juízes e procuradores. Perante os tribunais, convencia graças à sua superior capacidade de argumentação, que conseguia amplificar com a ajuda de alguns gestos teatrais.
É de todo esse percurso, substancialmente marcado pela sua entrega às causas sociais, aliando-se as suas características de «líder nato de massas», que se desenvolveram algumas lições sobre liderança, que passamos, sem mais delongas, a enumerar e caracterizar brevemente através do relato de pequenas histórias.
1. A coragem não é a ausência de medo, mas a capacidade de inspirar outros a superá-lo
Em 1994, Stengel e Mandela dirigiam-se pra KwaZulu-Natal num pequeno avião, quando um dos motores falhou. De acordo com Stengel, todos os passageiros terão ficado em pânico, à exceção de Mandela, que continuou a ler o seu jornal, o que, por sua vez, acalmou os outros. Após a aterragem, já em segurança, Mandela terá dito: "Que medo que eu tive lá em cima!"
2. Lidere no topo, sem nunca esquecer a base
Quando o prisioneiro Mandela, meados dos anos 80, decidiu tentar sozinho o diálogo com o governo branco, quebrou um tabu dentro do ANC (African National Congress), que, durante décadas, seguiu a máxima de que os prisioneiros não podiam negociar. Às fortes críticas dos que tinham sido presos com ele, Mandela reagiu convencendo cada um deles da sua alteração tática, mas não estratégica, até voltar a cerrar as fileiras atrás de si em seu apoio.
3. Lidere de trás e deixe que os outros acreditem que estão à frente
Dos tempos que trabalhou com Mandela na sua autobiografia, Stengel recorda-se de encontros ocasionais entre Mandela e os seus «conselheiros não oficiais», em casa de Mandela, em Houghton, perto de Joanesburgo. Durante a sua presidência, Mandela dirigia as suas reuniões com os seus «conselheiros não oficiais» tal como tinha visto fazer os seus antepassados em Transkei, durante a infância, que resolviam pequenos conflitos entre si, usando da eloquência e criando consensos. A discussão seria sempre a última solução e outro truque consistia finalmente em convencer os restantes intervenientes das suas ideias e fazê-los pensar que eram as suas próprias ideias.
4. Conheça o seu inimigo e descubra o seu desporto favorito
Este é Mandela na sua essência e, ao mesmo tempo, tipicamente sul-africano. Aprender a língua dos seus inimigos, o africânder, e utilizá-la ocasionalmente na presença dos mesmos, era causa de grande embaraço. E vestir, mais tarde, a camisola da equipa de râguebi da África do Sul, em frente às câmeras, foi como abrir uma brecha na facção africânder, que se opunha a uma reforma.
5. Mantenha os amigos por perto e os inimigos ainda mais perto
Mandela acreditava que teria de abraçar os seus inimigos para os poder controlar. Estes seriam mais perigosos, se agissem «à sua maneira», do que na sua área de influência. Na sua opinião, as pessoas agiam sempre em interesse próprio, o que seria um mero facto da natureza humana e não um erro ou defeito. Mandela neutralizava opositores e rivais através do seu charme incontornável, que tanto encantou prisioneiros em Robben Island como o último primeiro-ministro branco, F. W. de Klerk, e as famílias de grandes magnatas mineiros, a quem, por exemplo, prestava a sua homenagem em funerais.
6. A aparência conta e não se esqueça de sorrir
Durante uma determinada parte da sua vida, Mandela deu grande importância à roupa que usava, quer fosse o fato justo nos seus tempos de advogado, quer se tratasse do drillich e da barba por fazer, qual guerreiro do braço armado do ANC, ou ainda das suas camisas coloridas, que nas suas aparições perante as massas caracterizariam o avô sorridente da África moderna Ainda mais importante, de acordo com Richard Stengel, era o sorriso desarmante e pacificador de Mandela. Para os sul-africanos brancos, simbolizava a ausência de amargura e fazia-os pensar que era para eles. Aos eleitores negros, por sua vez, parecia dizer "Eu sou o guerreiro feliz e iremos triunfar".
7. Nada é preto ou branco
Na vida é ou/ou. As decisões são complexas e existem fatores concorrentes. A vida concorda com o cérebro humano em querer ter explicações simples, mas isso não corresponde à realidade. Nada é tão evidente como pode parecer. Enquanto Mandela combatia inquestionavelmente o apartheid, reconhecia ao mesmo tempo as suas diferentes origens históricas, sociológicas e psicológicas.
8. Renunciar também é um tipo de liderança
Com o seu anúncio precoce de querer apenas cumprir um mandato na presidência, Mandela tencionava enviar um aviso, não só para os seus sucessores, mas para todo o continente africano. A sua «tarefa», de acordo com um companheiro da altura, Cyril Ramaphosa, «era decidir o rumo do navio, não comandá-lo». Mandela estava convencido de que os líderes políticos lideram mais pelo que não fazem do que pelo que fazem.
Para fechar este artigo, eis as palavras finais que Nelson Mandela dirigiu ao juiz, no âmbito do Processo de Rivonia, que viria a condená-lo à prisão perpétua em 1964, bem demonstrativas da sua determinação:
"Consagrei a minha vida à luta do povo africano. Lutei contra a supremacia branca, assim como lutei contra a supremacia negra. Persegui sempre o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem em comunidade, pacificamente e com igualdade de oportunidades. É por este ideal que vivo e luto. Mas se for necessário, então estou pronto a morrer por ele."
Nelson Mandela viria a conhecer a liberdade em 11 de fevereiro de 1990, aos 71 anos, ocorrendo o seu falecimento em 05 de dezembro de 2013, aos 95 anos. Não se cumpriu a prisão perpétua, não precisou de morrer pelo seu ideal. Além do apartheid ter conhecido o seu fim, Madiba inspirou todo o planeta a ambicionar por um mundo melhor. Oxalá existissem atualmente personalidades como Nelson Mandela, Mahatma Gandhi ou Martin Luther King Jr..
LPM




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